A dança das cadeiras e o novo rosto da alta-costura: o que Paris nos disse em julho de 2025
- inpact5
- 12 de jul. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 16 de jan.

Não foi uma semana de moda comum. A Paris Haute Couture Week FW 2025 se desenrolou sob o signo da transição e não apenas nas roupas, mas nos bastidores. A famosa “dança das cadeiras” entre diretores criativos, que vem se intensificando nos últimos meses, finalmente se refletiu na passarela com força total. A moda, que muitas vezes ensaia rupturas, agora parece vivê-las.
De Demna na Balenciaga a Iris van Herpen, passando pelos universos de Schiaparelli, Chanel, Margiela e Armani Privé, a sensação é a de um setor em ebulição. Entre despedidas, provocações e reafirmações estéticas, o que se viu foi um desfile de intenções sobre o que será o luxo no futuro — e como a couture está deixando de ser apenas espetáculo para se tornar narrativa.

O último ato de Demna: um adeus silencioso, mas potente
No que foi anunciado como seu último desfile à frente da Balenciaga, Demna surpreendeu ao abandonar os memes e polêmicas que marcaram sua gestão para oferecer uma coleção técnica, contida e centrada no ofício. Ele escolheu o ateliê original de Cristóbal Balenciaga para apresentar uma homenagem direta ao fundador: ombros curvados, alfaiataria escultural, vestidos em guipure contínuo e um silêncio carregado de intenção.
O vestido final, uma peça sem costuras feita com técnicas de chapelaria, simbolizou a busca por perfeição artesanal. Foi um adeus sem gritos, mas com precisão cirúrgica. O futuro de Demna agora aponta para a Gucci, o que só aumenta a expectativa sobre os próximos capítulos dessa dança criativa.

A volta da técnica como narrativa. Alfaiataria e silhueta voltam a ser o centro do lux
Surrealismo e sensualidade em Schiaparelli
Daniel Roseberry abriu a semana com um espetáculo de teatralidade silenciosa. A entrada de Cardi B com um corvo vivo no braço já dizia tudo: estávamos prestes a mergulhar em um mundo onde o real e o fantástico se encontram.
Com silhuetas esculpidas, vestidos-coração, bordados anatômicos e um contraste entre minimalismo e excesso, Schiaparelli entregou uma coleção que falava tanto sobre corpo quanto sobre desejo, ao mesmo tempo em que sugeria um certo esgotamento da lógica do “espetáculo pelo espetáculo”. Tudo era mais sutil, mais inteligente, mais sombrio.
Sur

realismo emocional, onde os símbolos não gritam — sussurram com força.
Chanel: a feminilidade vestida de campo
Na Chanel, a natureza foi o centro. Comandada ainda por Virginie Viard (embora rumores indiquem mudanças), a maison levou à passarela uma coleção inspirada na vida ao ar livre, com tons crus, tweeds suaves e bordados orgânicos. Uma couture que fala de conforto, leveza e identidade. Menos sobre fantasia, mais sobre conexão.
A silhueta era ampla, os tecidos ganhavam peso emocional, e a beleza tinha acabamento quase “sem maquiagem”. Uma Chanel mais calma, quase contemplativa, sem abandonar sua elegância nativa.

O “quiet luxury” segue vivo: simplicidade com riqueza tátil e afetiva.
Iris van Herpen: o corpo como ecossistema
Após um tempo longe das passarelas, Iris van Herpen voltou com uma proposta absolutamente visionária. Usando biotecnologia, apresentou vestidos com algas bioluminescentes, tecidos sensíveis ao movimento e estruturas inspiradas em organismos vivos.
É moda ou ciência? É alta-costura ou performance artística? Van Herpen dilui todas essas fronteiras para propor algo novo: a roupa que interage, respira, reage. Um luxo não do passado, mas de um futuro sensorial e interativo.
O surgimento da “moda viva”
Margiela, Armani, Mishra: ruptura, tradição e emoção
Glenn Martens na Margiela entregou o que talvez tenha sido o desfile mais radical da semana: looks deformados, tecidos queimados, estética distópica e discurso anti-polido. Uma couture bruta, desconstruída, que questiona o próprio conceito de beleza.
Armani Privé celebrou 20 anos de história com uma coleção que uniu referências orientais, bordados ultraelaborados e silhuetas que abraçavam o corpo como armaduras leves. Era tradição, mas com alma moderna.
Rahul Mishra emocionou com vestidos que pareciam saídos de sonhos sufis, bordados com milhares de fios dourados, como se o amor fosse costurado na peça. Alta-costura como oração visual.
O que tudo isso significa?
Com tantas cadeiras mudando de dono, a moda vive uma das fases mais interessantes dos últimos anos. A alta-costura volta a ser laboratório, mas agora menos elitista, mais emocional. Em vez de gritar, ela fala com camadas.
O que aprendemos com Paris nesta temporada?
As 5 grandes tendências da couture FW25:
Arquitetura emocional: alfaiataria escultural com alma — da precisão de Demna à delicadeza de Chanel.
Beleza silenciosa: o fim do excesso como regra. Looks mais calmos, mas carregados de significado.
Corpo vivo: roupas que interagem, que respiram, que vibram com o movimento.
Surrealismo simbólico: elementos de fantasia usados com inteligência, e não como adorno gratuito.
Tradição reinventada: técnicas ancestrais aplicadas de forma contemporânea, como Mishra e Armani provaram.
Um novo capítulo da moda?
Com Demna saindo de cena, Van Herpen renascendo e jovens nomes emergindo, a sensação é de que estamos prestes a testemunhar uma mudança de guarda real na moda global. A couture não é só sobre vestidos. É sobre quem está contando a história e, nesta temporada, essa história teve densidade, coragem e delicadeza.
Continue acompanhando @inpact.lab para mais análises de moda, cultura e inovação.



Comentários